O Lugar do Corpo Na Abordagem Psicoterapêutica da Análise Psico-Orgânica por Silvana Sacharny

A Análise Psico-Orgânica é uma abordagem analítica com mediação corporal que completou 35 anos de existência enquanto método e 30 anos de Escola, através da EFAPO (Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica). Seu criador é Paul Boyesen, filho de Gerda boyesen( fundadora da Psicologia Biodinâmica nos anos 50/60 vinda das correntes neo raichianas). No Brasil esta abordagem é representada pelo Centro Brasileiro de Análise Psico-Orgânica ( CEBRAFAPO).
A APO vai propor modelos teóricos e clínicos que articulam as dimensões psíquicas, orgânicas, emocionais e energéticas. O corpo ganha aqui a dimensão de um sistema organizado de forma profunda e complexa.


Nos interessamos não apenas pela história do sujeito mas como ele vivencia sua história no corpo no qual ele habita.A dimensão da memória somática desde os primórdios da vida é um dos fundamentos da nossa prática clínica. Como a psique vai sendo constituída a partir da experiência corporal sensória. Por isto este é um corpo vivo, pulsante, que existe enquanto unidade funcional. A APO vai buscar uma melhor circulação energética entre os processos somáticos, emocionais e psíquicos e um diálogo entre o consciente e o inconsciente.


Falar do corpo é associá-lo ao tempo, pois o corpo é o lugar em que o tempo aparece. Nos primórdios da vida desde a vida intra-útero e depois com o evento do nascimento, a experiência do EXISTIR se dá completamente no registro SENSORIAL/AFETIVO. O bebê humano vive num espaço de total indiferenciação e será necessário uma longa jornada para a constituição de um corpo integrado diferenciado do corpo de quem exerce a função materna. Os sofrimentos, fragilidades e feridas, permanecem impressos na memória somática inconsciente, quando este núcleo é muito frágil a capacidade de elaboração e simbolização também será. Podem se desenvolver quadros compulsivos, somatizações, ansiedades, medos exarcebados. O sujeito vai se desenvolvendo tendo uma experiência de insegurança de base, com a tendência de muitos transbordamentos emocionais e sensórios. Na pratica clínica buscamos propostas terapêuticas ligadas ao toque, à massagem biodinâmica e tb trabalhamos com a respiração.

A relação terapêutica tem a possibilidade de resgatar ou mesmo inaugurar este asseguramento de base, ativando no corpo do cliente experiências de conforto e confiança. Um processo de autorregulação ou microrregulação vai sendo resgatado. A partir deste novo fluxo, imagens, associações e representações podem emergir e criar novos sentidos.
Como diz a psicanalista Ivanise Fontes; “Pensar é partir das sensações corporais e transformá-las em idéias e conceitos, em direção á construção de uma representação simbólica.” Paul Boyesen complementa dizendo que “Tocando o corpo, a carne, eu acordo o verbo”. Este é um verbo conectado com a experiência do sentir, do sentir autêntico podendo se expressar no mundo. Estamos na dimensão da macrorregulação, ou seja, do como o sujeito se posiciona nas relações com o mundo. Essas expressões podem estar aprisionadas em funcionamentos reativos ou submissos à dinâmica familiares de origem. O movimento energético se torna estagnado, retido, comprometendo as verdades do sujeito desejante. Nessa dimensão a APO vai buscar o acesso as imagens, as infinitas camadas associativas de como o corpo introjeta as situações, no seu espaço intrapsíquico. Buscamos a liberação da energia psíquica para novos posicionamentos e expressão no mundo. Vivemos vários corpos; da sensação, do desejo, da representação, da expressão, do sentimento. Necessitamos da fluidez energética e do diálogo entre todas as camadas, atualizando a cada tempo a nossa energia vital e buscando encarnar, dar corpo a nosso potencial criativo.


Poder criar uma maior circularidade, circulação da nossa energia vital é empoderar-se, apropriar- se da autenticidade dos nossos desejos. Temos a capacidade e mesmo a responsabilidade em sermos sujeitos de transformação e não mais ficarmos asujeitados e aprisionados. Ativando a nossa energia de vida, energia da fonte primaria acessamos o nosso ser criativo.Cada um com sua própria potência criativa reverbera no seu microcosmos articulando dessa forma um todo maior.Se faz urgente na nossa contemporaneidade uma maior saúde integral, da microrregulação no corpo próprio à macrorregulação nas relações afetivas.