Coexistência: do mecanicismo à visão sistêmica da vida

Antes de dar início à leitura deste artigo proponho um convite:

faça uma pausa.

Expire.

Inspire.

E pergunte-se: - o quanto sinto-me conectado a mim mesmo, ao outro e à vida?

 Inicialmente, gostaria de propor um recorte histórico sobre o vasto campo de influências que atua em nossa forma de pensar, sentir e agir. Somos herdeiros de uma estrutura de pensamento dual, cartesiana e determinista, inspirada por René Descartes e Isaac Newton, expoentes pensadores do século XVI. Em essência, esse olhar pressupõe compartimentar os fenômenos complexos da vida em partes para tornar possível a compreensão do todo e das partes. Isso impactou diferentes esferas: das nações às organizações, do coletivo ao indivíduo. Gerou uma cisão em em diferentes esferas: corpo-mente, oriente-ocidente, espírito-matéria, homem-natureza. Passamos a desenvolver uma estrutura de pensamento binária e excludente. Apoiada no racionalismo e em um olhar de causa-efeito linear para os fenômenos da vida.

Em confluência a esse olhar, trago para debate outro modelo que permeia de forma contundente as nossas relações: o patriarcado. No livro “O Cálice e a Espada”, Riane Eisler, socióloga e ativista social, traz importantes provocações: “Como seria viver centrado numa conversação de harmonia com a natureza e não na busca de seu controle e dominação? Como seria viver na cooperação, no prazer da convivência, ao contrário de na competição? Como seria viver sem buscar uma justificativa racional para dominar o outro, não pretendendo ser dono da verdade? Não sabemos. Sabemos, sim, da rebelião contra as tiranias ideológicas ao redescobrirmos a dignidade experimentada pelo respeito por si mesmo e pelo outro quando deixamos que a biologia do amor recupere a sua presença”.

Quais seriam, então, os efeitos desses modelos em nossos dias atuais? Podemos, sim, dar um lugar respeitoso a cada um desses movimentos, pois fazem parte da nossa evolução enquanto seres humanos em sociedade, junto de um pensamento crítico sobre seus impactos no presente e futuro.

A esse propósito, Costa Neto, educador, afirma: “A Terra não resistirá a mais um século do fazer cartesiano-newtoniano: fragmentário, mecânico, explorador”

Segundo dados publicados pela organização Global Footprint Network, em julho de 2019 a humanidade já havia consumido todos os recursos naturais (água, terra, ar limpo) que o planeta oferece, além da sua capacidade de renovação. Isso significa que o planeta passou a operar no “vermelho” e, a cada ano, essa data se antecipa, tornando cada vez mais difícil para o planeta regenerar seus recursos.

É fato que o nosso modo de vida se tornou insustentável sob diferentes aspectos e que fomos gradualmente nos afastando dos princípios da coexistência.

Na contra-mão dessa estrutura de pensamento, filósofos e pensadores contemporâneos têm provocado uma nova forma de observar e lidar com a realidade. Edgar Morin, filósofo francês, um dos protagonistas deste movimento, afirma que “Todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana”.

Nesse sentido, trazer à cena o tema da Coexistência é resgatar essa visão integrativa e sistêmica. Visão esta que reside no universo simbólico de cada um de nós pois é parte da natureza humana e da vida. O convite é ampliamos nosso olhar das partes ao todo. Dos objetos aos relacionamentos. Da causalidade linear para a circularidade. Da verdade ao relativismo. Da separatividade à interdependência.

O ser humano não é uma ilha. Somos seres relacionais. Somos interdependentes. Interconectados. O todo nos influencia e influenciamos o todo.

Nesse sentido, proponho três pilares que sustentam a Coexistência: (1) a relação consigo (2) com o outro e (3) com a vida; inicialmente representados de forma segmentada, mas que fazem parte desse continuum das relações do homem consigo e com a exterioridade.

Partindo do indivíduo consigo, posso convidá-lo a algumas reflexões: como vai a sua relação com você? Você tem clareza das suas necessidades e limites? Como você se trata? Co(existir) consigo passa por essa (re)ligação e integração de suas diferentes dimensões: corpo, mente, emoções e espírito.

Do indivíduo à exterioridade, caminhamos na direção de como nos relacionamos com o outro e com o entorno. Então, talvez, você possa se perguntar: como avalio a qualidade das minhas relações? Como lido com as diferenças? Qual é o meu nível de diálogo, escuta e troca com o outro? Em um sentido mais amplo, sinto-me parte de um Todo? Que sentido dou à minha existência?

Talvez estes questionamentos façam emergir em você diferentes sensações físicas e sentimentos. Talvez seja tomado por lembranças e imagens. Essas diferentes dimensões fazem parte do seu Eu, que, de alguma forma, se relaciona comigo, à medida que percorre as linhas desse artigo. E talvez essas reflexões possam fazer despontar novas reflexões no seu campo pessoal. E quem sabe isso impacte as pessoas próximas a você, e, até a sua relação com a vida...

Assim caminhamos, tecendo a existência, fluindo com toda a sua complexidade, impermanência e movimento.

Somos um. Na diferença e na singularidade. Na igualdade e na fraternidade

Coexistimos.