Análise Psico-Orgânica por Silvana Sacharny

Para contextualizar o método da Análise Psico-Orgânica, criada por Paul Boyesen, é necessário se referir inicialmente à Psicologia Biodinâmica, fundada por Gerda Boyesen. Ao longo dos anos 60, num quadro teórico e prático neo-reichiano, o trabalho da biodinâmica se desenvolve focalizando a abordagem da psique através do trabalho orgânico. Sua contribuição pessoal foi mostrar que o efeito terapêutico se passa essencialmente durante o defluxo da circulação energética, o defluxo seria análogo à descarga do ciclo carga/descarga de Wilhelm Reich. O trabalho de Gerda consiste em favorecer, através de massagens apropriadas, um relaxamento profundo e intensificar a fase parassimpática do ciclo energético. Ela cria o conceito de psicoperistaltismo que se refere à digestão e dissolução do acúmulo de resíduos de estresse no organismo, permitindo assim que uma nova circulação se coloque em ação.1

O trabalho de Gerda Boyesen, privilegiando a abordagem pelo corpo levou Paul Boyesen, no final dos anos 70 ampliar a proposta da biodinâmica aliando intimamente o trabalho corporal ao analítico. As palavras, o discurso do sujeito e as imagens, a produção de imagens, serão instrumentos terapêuticos fundamentais integrados ao trabalho orgânico.  No início dos anos 80, Paul Boyesen reúne uma equipe de psicoterapeutas e formadores (Anne Fraisse, Jaqueline Besson, Jean Pierre Magnant, Joëlle Boyesen, Yves Brault) para fundar a Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica. Atualmente é um método reconhecido pela Associação Européia de Psicoterapia e além da França existem formações na Alemanha, Montreal, Beirute, Lituânia e no Rio de Janeiro. 

A Análise Psico-Orgânica busca as ligações entre a linguagem verbal (significar a experiência emocional), a produção de imagens (acessar o universo simbólico) e a experiência energética, sensorial. Dando à Psicologia Biodinâmica uma forma mais analítica, Paul Boyesen cria modelos fenomenológicos (o Círculo Psico-Orgânico, o trabalho sobre a Impulsão Primária - Primary Impulse Training), permitindo a compreensão do funcionamento intra-psiquico do sujeito e a dimensão da relação (transferência e contra-transferência) no processo terapêutico. É uma busca constante de transitar do verbo ao corpo, do corpo ao verbo, percebendo de que forma ocorrem os bloqueios ao longo destas passagens, como é possível liberar a energia estagnada e fixada para estabelecer uma melhor circulação entre estas diferentes instâncias. A liberação da energia se dá na direção da construção de algo novo. Trabalhamos com a noção de liberação no sentido de criar possibilidades de novas escolhas.  A dinâmica original da vida constituirá o sujeito numa determinada estrutura, num padrão de funcionamento que certamente lhe foi útil durante anos. Este padrão porém, paradoxalmente, o aprisiona num certo funcionamento que o limita e reduz o seu campo de ação. A constituição original se funda sobre uma dinâmica relacional que freqüentemente impede, ou direciona excessivamente as expressões emocionais do indivíduo. Nesta dialética amorosa, onde "para obter o amor dos pais, preciso ser de uma determinada forma", o indivíduo se torna refém do desejo do outro. Nesta medida ele irá reagir constantemente pois sua voz não pode ser ouvida ou ele irá se resignar em conformidade com a situação. De toda forma o indivíduo não está vivendo sua ação, sua manifestação verdadeira no mundo.  A intenção do tratamento em Análise Psico-Orgânica é resgatar a potência desejante, poderíamos chamar de autenticidade. Estas verdades estão impressas no corpo que ficou enrijecido numa mesma forma de expressão e nas palavras que necessitam a voz da legitimação. É o verbo conectado com a experiência corporal, o "verbar" como diz Paul Boyesen, que fará com que o sujeito encontre os seus verdadeiros sentidos. Sentidos estes que articulam o simbólico, as sensações e os sentimentos.  O "verbar" é um verbo que traz consigo a potencialidade da ação, do movimento. O movimento energético é o suporte necessário para a manutenção do desejo. Este movimento pode estar constrito, estagnado, retido, comprometendo a auto-regulação do organismo e as expressões criativas do indivíduo. O sujeito fica então capturado por seus sintomas, vulnerável ao sofrimento e à doença. Ele se desconecta do seu corpo, de suas capacidades organizadoras.  Neste foco trabalhamos no sentido de religar ao corpo, buscando encontrar vias para o reabastecimento energético, sendo este o espaço de regulação interna ou micro-regulação. As propostas utilizadas são: o toque, as massagens biodinâmicas, a respiração, o relaxamento e os movimentos corporais.

Se religar ao corpo é dar acesso ao resgate do prazer, da confiança nas sensações e sentimentos. A partir deste contato o sujeito pode ampliar e aprofundar suas conexões nas interações com o outro, com o mundo, o que nomeamos macro-regulação. Na psicoterapia voltamos ao passado para podermos avançar no futuro. O sujeito carrega e traz sua estória no seu encontro com o outro. Não se pode mudar o seu passado, mas pode-se mudar a experiência do seu passado, ou seja, trazer à consciência e olhar de um outro lugar, podendo no presente fazer uma outra opção. Neste nível trabalhamos com a cadeia associativa no acesso às imagens, com visualizações e sonhos. Procuramos perceber como o indivíduo traz sua estória, sua linguagem somática, emocional e psíquica. Nos apoiamos na tríade sentimento/expressão/situação. O sentimento se refere à percepção e à forma de sentir, poder nomear seus afetos e dar corpo a esse sentir. A situação fala de como a pessoa introjetou a sua experiência, remetendo-se a um corpo subjetivo, fantasmático, ao registro das imagens. A expressão é a capacidade de externar, poder colocar em cena os afetos, as representações mentais e desta forma reelaborar, redinamizar o que havia paralisado. O tratamento vai possibilitar um dinamismo transformador, tocando no potencial criativo que não encontrava acesso para a sua expressão.  Para Paul Boyesen, a questão do "porque eu vivo" é importante, mas também o "como eu vivo" e nesse "como" podemos encontrar a pessoa com todos os seus sentimentos, sua expressão vital e suas situações: é o que ele define por qualidade da vivência. 

Certamente a psicoterapia é um processo, necessitando de um trabalho contínuo, sistemático, entre a desconstrução de antigos padrões e a construção de novos posicionamentos, de novas opções. Desta forma o indivíduo se atualiza, permitindo a liberação da energia vital, primária, do seu potencial criativo para ser de fato sujeito de transformação. 
 
Bibliografia:  BOYESEN, Gerda. Entre Psiquê e Soma - Introdução à Psicologia Biodinâmica. Summus Editorial.  FRAISSE, Anne. Fonte de Fogo – Ensinamento e Iniciação: Vida, Morte e Renascimento num Percurso Analítico. Mauad Editora & Bapera Editora.